A separação da natureza

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Até ao início dos anos 60, não existiam grandes preocupações de cariz ambiental. Foi a partir desta data, e com os sinais gritantes dos impactos ambientais produzidos pela vertigem do progresso e de um consumismo incontrolado, que se instalou uma crise ecológica sem precedentes. O Homem, que sempre quis governar a Natureza, descobriu que estava refém da sua ambição e da sua arrogância.

A extinção em massa de espécies, a crescente poluição do ar, dos rios e dos oceanos, a destruição de florestas milenares e de ecossistemas únicos, o buraco na camada de ozono e a ameaça constante das alterações climáticas são um pequeno exemplo dos desastres ecológicos produzida pela ação humana, quase sempre, por opções de crescimento económico.

Foi divulgado recentemente um estudo sobre a distribuição da biomassa dos organismos na Terra, que chegou à conclusão que, apesar de representarmos apenas 0,01% de todos os seres vivos na Terra já causamos a perda de 83% de todos os mamíferos selvagens e de metade das plantas do mundo. Assustador, não é?

Mas quando é que começou esta crise de valores? Quando é que começamos a ver a Natureza como uma coisa? Quando é que nos começamos a separar? Poderíamos pensar que é uma coisa recente e que se intensificou com a Revolução Industrial, o que, de certo modo está correto, mas não é inteiramente verdade.

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Esta objetificação da Natureza vem já de há muito tempo. Há quem responsabilize1 a teologia judaico-cristã pelo enquadramento conceptual que legitima as ações do Homem sobre a Natureza (homem à imagem de Deus, acima da Natureza e de todos os seres), o que também não é inteiramente verdade. Têm existido ao longo do tempo muitos teóricos e filósofos que foram desenhando uma conceção do mundo e do Homem inteiramente favorável aos interesses humanos e que vão muito para além desta matriz religiosa. A ordenação hierárquica dos seres de Aristóteles, a afirmação da indubitável e radical distinção entre a Natureza e o Homem, primeiro de Galileu e depois de Descartes ou a atribuição de um valor instrumental aos seres da Natureza, por parte de Kant, foram todos pequenos pontos que nos levaram a ver a dominação da Natureza como algo normal e até, de certo modo, recomendável.2

Passamos a ver a Natureza como um meio para atingir um fim, como algo extrínseco e que existe para nos servir. Com o aumento do consumismo, da população e da nossa ganância, a Natureza passou apenas a ser o local onde vamos “buscar” aquilo que precisamos para construir as nossas coisas.

Esquecemo-nos que a Natureza não é algo que está lá longe e onde vamos quando precisamos de alguma coisa. Esquecemo-nos que não existe cá e lá. Não existe o “nós” e a Natureza. Nós somos Natureza.

Somos feitos da mesma matéria das árvores, do ar, da água, do vento, dos animais. Somos todos átomos e estamos todos ligados pelo espaço, pela matéria, pela energia. No fundo sabemos que isto é verdade, mas estamos tão distraídos na nossa vida mundana, de mais coisas, de deadlines, de stress, de pressa, que perdemos a capacidade ver isto.

Hoje celebra-se o Dia Mundial do Ambiente, e aproveito a data para relembrar que somos todos um, uno, que existimos na Natureza e que a Natureza existe em nós. Em pleno. Só temos que nos voltar a conectar.

Porque sim, a vida pode mesmo ser mais simples.

Lynn White Jr. “The Historical Roots of our Ecological Crisis”
Maria José Varandas “Ambiente: Uma Questão de Ética”

 

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2 thoughts on “A separação da natureza

  1. Luís Santos diz:

    Excelente artigo! Na minha opinião é urgente apostar na “Ecoliteracia” da população não só portuguesa, mas também europeia, e daí fazer o salto para outros países. O nosso afastamento da Natureza é a meu ver o factor principal para o estado das coisas actualmente. Fechamo-nos nos nossos apartamentos e nos nossos meios urbanos e sub-urbanos. Esquecemo-nos do que é ter que saber identificar plantas ou cogumelos silvestres com valor. As pessoas provavelmente não conseguem dar exemplos do que mais de 5 espécies de aves, mamíferos ou de outro grupo taxonómico. O estilo de vida da sociedade moderna está formatada para uma vida urbana, fácil e cómoda. Seria de valor que algures na cronologia desta Era, houvesse uma mudança profunda na mentalidade das pessoas. Uma que as levasse a ver, que não somos apenas um à parte, mas sim a parte de um todo e que devemos fazer todos os possíveis, para viver em harmonia com ele e preservá-lo a todo o custo.

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    • Leila Teixeira diz:

      Olá Luís! Muito obrigada pelo teu comentário. Concordo plenamente com tudo o que dizes. Estamos a tornar-nos seres completamente desconectados (de nós e do mundo). Passamos da casa, para o carro e depois para o escritório, só para repetir a mesma coisa outra vez em sentido oposto, como máquinas. Já não sabemos estar ao ar livre, já não deixamos as crianças descobrirem o mundo. Precisamos de desligar a televisão e sair de casa. Ligar-nos novamente com o planeta, com o ritmo das estações e uns com os outros.

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